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Atos dos Apóstolos, as Primeiras Comunidades e São Paulo

O livro denominado Atos dos Apóstolos é a segunda parte da obra de São Lucas. Não há um paralelo em todo o Novo Testamento, sendo um gênero original do autor. Embora o título do livro seja Atos dos Apóstolos, seu conteúdo não está, de fato, preocupado sobre os doze, mas sobre a Igreja nascente e a ação do Espírito Santo (praticamente o protagonista de todo o livro). Assim, se percebe na narrativa atenção a alguns personagens, nem todos parte dos doze, como Estevão, Felipe, Barnabé e o próprio Paulo. Mas, salta aos olhos que o livro fala da Igreja e sua missão (At, 1, 8).

Atos dos Apóstolos


Estão no corpo do texto de Atos dos Apóstolos, o tempo da Igreja (em contraposição a um fim dos tempos próximo) e a relação entre os convertidos à mensagem de Jesus Cristo e os judeus. O que parece perfeitamente adequado, visto que no período em Lucas viveu a Igreja estava se “separando” do judaísmo, não sem dificuldades e conflitos. Em Atos dos Apóstolo, a Igreja sai ao encontro de todos, inclusive, os gentios.

O conteúdo, então, pode ser definido como a narração da progressiva difusão do Evangelho em todo o mundo, partindo de Jerusalém, centro da história da salvação, até chegar em Roma, centro do Império Romano e, portanto, do mundo conhecido.

Entre os elementos importantes que devem ser levados em consideração se destacam os personagens envolvidos e o esquema geográfico em que se situa sua atividade. 

Personagens, há um ciclo de Pedro (1-12) e um ciclo de Paulo (13-28). Em linhas gerais, isso corresponde à realidade, porque Pedro e Paulo são os que intervêm com mais frequência em cada uma dessas seções. Mas, não se pode desconsiderar outros personagens como João, Estevão, Felipe, Barnabé e outros que são citados ao longo do conteúdo. 

Geografia, já no início do livro Lucas coloca na boca de Jesus palavras que organizam a atividade dos discípulos e o livro: “o Espírito Santo virá sobre vós e recebereis uma força que vos tornará minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia, em Samaria e até os confins da terra” (At 1,8). Isso nos ajuda a acompanhar as ações do livro, seguindo de etapa em etapa até o coração do Império, Roma representa os confins da Terra, chegar a capital do Império era, por consequência, chegar ao mundo inteiro.

Um grande fato que está narrado em Atos e que é determinante para a Igreja e para o próprio livro é a Assembleia de Jerusalém. 

Antes de continuar leia o trecho At 15, 1-35.

No que diz respeito à historicidade de Atos, Lucas se apega a textos materiais e tradições antigas a que teve acesso. A forma cuidadosa com que os redige, o paralelismo formal e de conteúdo indicam que são criação do autor do livro de Atos, na forma como se apresentam. Os elementos que Lucas preservou e integrou aos discursos servem para dar o tom das primeiras comunidades às palavras dos protagonistas contidas no livro. 

Lucas, que não foi testemunha direta dos acontecimentos, provavelmente escreve no final do século I, entre 80 e 100 d.C., mas retrata o período de 30 a 60 d.C. Uma das teses fundamentais de Lucas é que Deus dirige o curso da história e que tudo ocorre de acordo com seu desígnio. 

Os estudiosos consideram que Lucas omite o martírio de Pedro e Paulo em seu livro, pois o objetivo de seu escrito era mostrar como a Igreja crescia por ação do Espírito Santo e como ela se estendia exatamente como Jesus prescrevera. Nessa linha de pensamento, o relato dos martírios teria apenas papel historiográfico.

Paulo

O livro de Atos dos Apóstolos se confunde com a história das comunidades e do próprio Paulo, pelo fato que suas viagens estão aí descritas, o que por consequência também fala das comunidades que visita.

Paulo (ou Saulo) nasceu em Tarso na Cilícia (Ásia Menor) no início da era cristã (quando escreveu a Filemon em 62, disse ser ancião [Fm 9; At 21,39; 22,3; FI 3,5]), nasceu de família israelita, fiel às tradições religiosas, seu pai comprou a cidadania romana, de modo que Saulo nasceu como cidadão romano (At 25). Em consequência Paulo era herdeiro de três culturas: a hebraica (religiosa), a helenista (filosófica e artística) e a romana (jurídica). Aqui podemos ver a identidade de Paulo, a partir dessa tríplice herança.

Aos quinze anos de idade, foi à Jerusalém, onde estudou com o rabino Gamaliel (At 22,3; 26,4; 5,34), aprendeu a arte da interpretação da Sagrada Escritura, como também deve ter aprendido uma profissão manual (curtidor de couro). Paulo, vinte anos depois ou em 36 d.C., já era um ardoroso perseguidor dos cristãos, julgando assim servir a Deus. Foi em Damasco que o Senhor lhe fez cair (prostrar o rosto significa reconhecer a grandeza de quem lhe está a frente)

Feito cristão, começa em Damasco mesmo a pregação do Evangelho, não sendo aceito pelos ouvintes (que sabiam ter sido objeto de perseguição há pouco). Retirou-se então para um lugar não muito longe de Damasco, onde permaneceu três anos, amadureceu sob a graça de Cristo, que lhe revelou a doutrina cristã. Regressou a Damasco, onde mais uma vez quis tentar a pregação do Evangelho, mas precisou fugir por causa dos judeus que lhe queriam matar (At 9, 19-25; Gl 1, 17). Era o ano de 39 d.C., quando Paulo em Jerusalém se avistou com Pedro e Tiago durante quinze dias (GI 1,18s), o concílio de Jerusalém, que tratará da questão dos gentios ocorrerá apenas em 51. Também tentou pregar o Evangelho aos judeus, mas não encontrou acolhida. Para escapar novamente da morte, teve que deixar a Cidade Santa e retornar à sua cidade natal (At 9, 26-30). 

Em Tarso deve ter permanecido quatro ou cinco anos, até 43. A esta altura, algo de importante se deu na vida de Paulo: Antioquia da Síria se tornara importante centro missionário, onde trabalhava Barnabé, primo de Paulo. Barnabé consciente da capacidade apostólica de seu parente, resolveu ir buscá-lo em Tarso para que colaborasse na missão em Antioquia (At 11, 25s). Esta nova tentativa foi bem sucedida, tanto que no ano seguinte, em 44, Barnabé e Paulo foram enviados pelos cristãos de Antioquia, para levar os frutos de uma coleta feita em favor dos pobres de Jerusalém (At 11, 27-30; 12,25). De volta a Antioquia, Barnabé e Paulo continuaram o seu ministério até 45 d.C., quando por designação do Espírito Santo, foram indicados juntamente com João Marcos para as terras distantes (At 13, 1-3). 

Paulo fez assim a sua primeira viagem missionária, que durou cerca de três anos (45-48), percorrendo a ilha de Chipre e parte da Asia Menor (cf. At 13,1-14,28), muitos abraçaram o Evangelho, constituindo comunidades cristãs esparsas pelo Sul da Ásia Menor. Serão as comunidades nascidas nessa viagem que causarão em Jerusalém a controvérsia que culminará na Concílio de 51 d.C. Lugares por onde passou na primeira viagem: Ilha de Chipre (Salamina e Pafos), Ásia Menor (Panfília, Perge, Antioquia da Psídia, Icônio, Listra, Derbe).


Paulo realizou então uma segunda viagem, que durou cerca de outros três aos (49-52), retornando às comunidades fundadas quando da primeira viagem (At 15, 36-18,23), segue pregando o Evangelho também em novas cidades. Lugares por onde passou na segunda viagem: ida (Região da Síria e da Silícia, cidades de Derbe e Listra, Icônio, Antioquia da Psídia, Trôade), na Europa (Filipos, Anfípoles, Apolônia, Tessalônica, Beréia, Atenas, Corinto), regresso (Éfeso, Cesaréia, Antioquia da Síria). Nessa viagem são escritas 1 e 2 Tessalonicenses.


A terceira viagem de Paulo seguiu-se imediatamente (53-58), uma viagem para confirmar as comunidades que criou (At 18, 24-21, 26). Lugares por onde passou na terceira viagem: ida (Antioquia da Síria, Galácia, Frígia, Éfeso, Filipos, Tessalônica, Beréia, Corinto), regresso (Filipos, Trôade, Mileto, Tiro, Cesaréia, Jerusalém). O sucesso das viagens incita os judaizantes e os judeus contra Paulo. Em sua chegada a Jerusalém será preso e acabará levado para Roma. No decorrer da terceira viagem, foram escritas as cartas Gálatas, 1 Coríntios, 2 Coríntios e Romanos.


“Quarta viagem” de Paulo (At 27-28,31), tendo apelado a César, Paulo precisa ir a Roma para ser julgado (60 d.C. a 63 d.C.). Mas, a viagem é longa e leva tempo suficiente para que Paulo ainda visite e esteja com comunidades pelo caminho. Lugares por onde passou: ida (Jerusalém, costa da Palestina, Sidom, Chipre, Creta, Malta, Óstia, Roma). Neste período foram redigidas as cartas Filemon, Colossenses, Efésios e Filipenses.


Embora os textos nos façam crer que ao final deste tempo em Roma Paulo tenho vivido o martírio, muitos historiadores defendem que Paulo conseguiu a liberdade neste primeiro processo, tendo continuado sua missão até o martírio (entre 64 d.C. e 67 d.C.), por ocasião de uma segunda prisão. Essa possibilidade, atestaria a autoria das cartas 1 e 2 Timóteo e Tito.

A título de curiosidade, a respeito de Paulo e suas obras escritas, uma carta como a de Romanos deve ter tomado dois meses de trabalho para ficar pronta, conforme calculam os biblistas.

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