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A sabedoria do povo de Israel

Aos livros que compõe a sabedoria de Israel, chamamos de SAPIENCIAIS. Neste conjunto está contido: Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes [Qoheleth], Cântico dos Cânticos, Sabedoria e Eclesiástico ou Sirácida.

Os livros sapienciais são aqueles que cultivam a Sabedoria. Para os judeus mais velhos seria um conjunto de normas úteis para vida prática e moral dos jovens e adultos. Mesmo em nossos dias, costumamos expressar a sabedoria por meio de provérbios, como: "Quem muito quer, nada tem". 

Essa sabedoria foi sendo cultivada desde a instauração da monarquia em Israel (séc. XI aC): na corte do rei, os sábios instruíam os jovens sobre o comportamento a assumir nas mais diversas ocasiões e Salomão, por exemplo, será considerado o mais sábio dos sábios, inclusive em relação aos povos vizinhos (1Rs 5, 9-14).

Como para Israel tudo converge a Javé em algum momento, também essa sabedoria foi tomando corpo religioso, até que conceberam a sabedoria como de Deus, um dom que ele concede. Neste sentido, quem busca pela sabedoria busca igualmente a Deus. São passagens que podem ajudar a entender esse movimento: Pr 1, 7; 6, 16; Jó 28, 28; Eclo 1, 11-21. | Jó 32, 8; Ecl 2, 26; Eclo 1, 1; 2, 6s; Sb 7, 27 | Pr 8, 32-36; Eclo 24, 1-22; Sb 1, 4s).

Especialmente quando consideramos o período do exílio (587-538 aC) e o pós-exílio, nos damos conta do importante papel da sabedoria e do sábio. É por meio do sábio que Israel aprende a refletir sobre tudo o que lhe aconteceu e achar sentido em tudo aquilo (Eclo 17, 1-14; 44, 1-50, 24; Sb 10, 1-19, 21). O avanço teológico na mentalidade de Israel a respeito do sofrimento ficará evidente em um livro sapiencial, o livro de Jó.


O livro de Jó


Aborda o problema do sofrimento do homem justo, por que os bons sofrem? Israel afirma até aqui que todo sofrimento é um castigo de Deus por causa dos pecados do indivíduo, ao passo que um vida longa, a saúde e o dinheiro seriam a recompensa dada aos seus fiéis (Dt 8, 6-18; 28, 1-30, 20; Sl 33 (34), 13-15; Pr 3, 7.13-18). Pensavam assim pois ignoravam sobre a vida póstuma consciente; acreditavam que após a morte se perdia a lucidez e se permaneceria no sheol

Após todo sofrimento do exílio essa concepção se tornou discutível, afinal, nem sempre os bons são recompensados nesta vida e nem sempre os maus são punidos (Jr 12, 1-6; Sl 76 (77), Ml 3, 14-16, Ecl 7, 15s; 8, 14)

Em Jó o autor apresenta um homem temente a Deus que perde seus bens e sua saúde (Jó 1, 1-2, 10). Três amigos aparecem e lhe recomendam que assuma seus pecados, aqueles pelos quais foi ferido desta maneira, Jó, porém, afirma sua inocência (4, 1-31, 40) e apela por Deus (31, 35s). Na sequência um jovem chamado Eliu tenha uma outra explicação [Deus pode permitir o sofrimento dos bons para preservá-los do orgulho] (32-37). Por fim, Deus intervém cala a Jó e seus amigos, ninguém é capaz de sondar os seus desígnios, Deus é sábio demais para que o homem possa pedir contas dos seus planos (38-41) e Jó então reconhece sua incapacidade de Deus julgar (42, 1-6). Deus o recompensa, restituindo-lhe a saúde e os bens materiais (42, 7-17). 

Assim, cai por terra a ideia de que sofrimentos são resultado das faltas ou pecados de alguém, e que Deus os infligia punitivamente. Ao mesmo tempo, saúde e riquezas não são mais recompensas dadas neste mundo por uma vida de retidão, era o fim da teologia da retribuição conhecida.

Jó, defendem os pesquisadores, é o mesmo citado em Ez 14, 14-20.


O Eclesiastes


Eclesiastes é a tradução grega do hebraico Qoheleth = o homem que fala na qahal ou na assembleia (Ecl 1, 2-12; 7, 27; 12, 8-10), sugere o autor no círculo dos sábios e seu livro como reflexões propostas a outros (talvez, discípulos). 

O livro de Eclesiastes lembra muito o de Jó, pois ambos tratam do problema da retribuição de Deus aos homens: Jó parte da realidade do mal (da doença.), Eclesiastes discute consigo mesmo a respeito da possibilidade de encontrar felicidade no prazer (2, 1-11), no trabalho (2, 18-23), no cultivo da sabedoria (2, 12-17), nas riquezas (5, 9-7, 1), e se dá conta de que em tudo há decepções; que a morte é o fim certo de tudo (2, 17; 3, 19-21). Claro, pois o autor ainda não tinha conhecimento da vida após a morte, isso explica o aparecimento de um pessimismo que se pode perceber no texto. Como o autor não consegue desenhar uma opção melhor para a teologia da retribuição, à qual ele vê com problemas (bons que são muito pobres e alguns maus que, mesmo assim, são ricos), sugere que se aproveite aqueles bens que lhe vierem em vida, pois de toda forma são dons de Deus.

O livro foi redigido, como defendem muitos pesquisadores, no séc. III a.C.


Cântico dos Cânticos


O Cântico dos Cânticos é um livro que poderíamos chamar, também, de "o mais belo dos cânticos", é isso que significa na língua hebraica se repetir duas vezes a palavra. Seu tema  é o amor de um homem chamado Salomão (3, 7-9) e rei (1, 4.12) por uma jovem designada como "a Sulamita" (7,1). Os poemas constantes no livro descrevem o curso desse amor, que vai desde uma primeira “fagulha” até a união nupcial. Devido ao conteúdo, por muito tempo, senão ainda hoje, o livro causa estranhamento para quem o lê.

Em teoria se sugere que o livro é sobre o amor do rei Salomão pela linda jovem introduzida na corte do rei Davi (1Rs 1, 3; 2, 21s) ou que fale sobre uma mulher ideal digna do rei Salomão. De toda forma, a interpretação figurativa do livro é a mensagem que melhor nos importa.

A imagem do esposo simboliza o próprio Deus e a da esposa o povo de Israel, A figura das núpcias era muito usada para designar uma aliança travada entre o Deus e o povo (5, 1-7; Ez 16, 1-63; 23, 13-21; Jr 3, 20). Assim, Cântico dos Cânticos relata o progresso do amor, que nasce e se consuma entre Javé e Israel (rebeldes, difíceis). Veremos algo assim novamente quando a Igreja será comparada à uma esposa para Cristo. 

Embora muitas seções do conteúdo sejam de veemente amor, não se pode perder de foco seu sentido teológico ou religioso, que aponta sempre para Deus e o homem.

O livro foi escrito, provavelmente, por volta do séc. V ou IV a.C. portanto posterior ao início do emprego das núpcias como figura da relação de Javé e Israel pelos profetas (séc. VIII a.C. e seguintes).


Sabedoria


O livro é chamado, nos antigos manuscritos, Sabedoria de Salomão. Ele exalta a sabedoria de Israel frente aos países que o circundam. No tempo em que o livro é escrito, acontece uma forte tentativa de helenização (fazer os judeus absorverem os costumes de vida e pensamentos dos gregos). O livro da Sabedoria é, então, uma apologia (defesa) da fé e cultura judaica.

Podemos dividir o livro em três partes:

a) 1, 16-5, 24: a sabedoria é fonte de retidão e imortalidade. O autor compara o justo com o ímpio; mostra que os maus sobre os bons nesta vida terão a inversão das sortes e os maus serão vítimas de horrível decepção, já os justos reinarão com Deus na vida póstuma. Sábio é aquele que, desde a vida presente, sabe escalonar os valores de modo definitivo, não se deixando iludir por bens transitórios opostos à Lei de Deus 

b) 6, 1-9, 19: a origem e os predicados da sabedoria são propostos. É a parte central do livro. Sabedoria é dom de Deus, que deve ser implorado e que é de modo especial, útil aos reis.

c) 10, 1-19, 20: como se retomasse a primeira parte do livro, agora o autor compara Israel e os ímpios (no caso, os dominadores). As pragas do Egito e a travessia do Mar Vermelho são gravadas de modo que se perceba uma proteção da sabedoria sobre os filhos de Israel. Ela guiou a coletividade do povo como guiou e guia o indivíduo justo. Trata-se de uma releitura do êxodo

No livro da Sabedoria, o problema do mal, que vimos em Jó e Ecl., se resolve na teologia do Antigo Testamento, Deus fez o homem para a imortalidade, por isso o homem justo goza da plena felicidade póstuma (3, 1-9; 5, 16s)


O Eclesiástico

 

Na origem seu nome é “Sabedoria de Jesus, filho de Sirac” (de vem o nome Sirácida em algumas versões bíblicas), mas como o livro era utilizado na catequese dos convertidos, em preparação para o batismo, recebeu o nome Eclesiástico, que poderia ser traduzido como “o livro da Igreja’, nele continham os "bons costumes" que as comunidades deviam observar.

De certo modo, o livro corresponde ao de Provérbios, porém escrito a partir das evoluções de pensamento que já abordamos acima. A primeira parte de Eclesiástico trata de temas como temor de Deus, a amizade, os anciãos, etc. (1, 1-42 , 14).  Na segunda parte de Eclesiástico corresponde a Sb 10-19 fazendo uma grande releitura da história de Israel (paralelo em 1Mc 2,51-64).

Em Eclesiástico 24, 1-34 a Sabedoria, já personificada, passa a assumir características humanas ainda mais evidentes, está com Deus, mas é distinta de Deus, ainda assim é muito próxima de Deus. Podemos dizer que aqui se encontra a preparação do pensamento judeu para a revelação da Santíssima Trindade em Jo 1, 1-18.

Este livro foi escrito no início do séc II a.C.

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