Bíblia, palavra de Deus.
No material anterior, vimos sobre as versões bíblicas católicas à nossa disposição no Brasil, sobre a trajetória dos textos sagrados ao longo do tempo, e abordamos a diferença entre a Bíblia católica e a Bíblia não católica. Tudo isso, para estarmos mais familiarizados com esse nosso instrumento de trabalho.
Agora, nos dedicaremos às questões doutrinárias que envolvem a Bíblia, olhando para ela não como um livro (objeto, instrumento, um confeccionado de papel, etc.), mas um conteúdo que é Palavra de Deus. Dividiremos nosso estudo nos seguintes pontos chave: da inspiração, da revelação, da verdade e da inerrância, da interpretação.
Da inspiração
De início, é preciso trazer à mente a intenção de diferenciar a Bíblia de todos os outros textos (escritos ou não) ao tratá-la como inspirada. Para ajudar nossa compreensão, podemos nos servir do mundo da música para um exemplo: muitos são os instrumentistas, aqueles que tocam algum instrumento, mas o título de virtuoso é dado apenas aos que se destacam, aqueles que parecem ter algo que não é comum a todos.
Pelas escrituras nós estabelecemos um diálogo com Deus e com as verdades que ele quis nos revelar, é essa característica sagrada a que nos referimos quando falamos em inspiração. É o que a faz diferente de todos os outros escritos.
“Toda escritura é inspirada por Deus” 2 Tim 16a.
Não há dúvidas que a Escritura foi composta por mãos humanas, em meio a um povo e uma história, da mesma maneira que são compostos todos os textos. Mas, por trás desse indivíduo-escritor há uma motivação-impulso-movimento-intenção que extrapola o indivíduo humano. É esse algo mais a ação inspiradora de Deus.
“Pois o mesmo David diz, inspirado pelo Espírito Santo: Disse o Senhor ao meu Senhor: senta-te à minha direita[...] (sl 109,1)” Mc 12,36.
Aqui temos duas grandes considerações: primeira, Jesus Cristo atesta inspiração bíblica; e, segunda, as escrituras já eram tidas como inspiradas pelos judeus.
A Bíblia é inspirada, o seu conteúdo é inspirado, os textos são inspirados. Ela é o registro escrito das ações, dos fatos, da história de um povo em profundo relacionamento com Deus. Então, essas ações e esses fatos também ocorrem por inspiração.
Os profetas eram portadores da Palavra de Deus, cheios do Espírito de Deus eles agiam no processo de recondução de Israel e eram abençoados com uma conexão muito particular com Deus, eram inspirados em suas ações e em seu falar.
O povo compreendia a ação de Deus por meio dos profetas, preservaram e transmitiram as histórias e as falas de geração em geração, eram inspirados para este falar-transmitir.
A decisão de registrar por escrito o que se preservava de forma oral é uma terceira forma de inspiração, uma terceira face, uma inspiração para o escrever.
- inspiração para o agir;
- inspiração para o falar;
- inspiração para o escrever;
Deus levou os homens ao agir, ao falar e ao escrever em favor de seu povo nesta caminhada para a Salvação. Mas, Deus não fez nenhum desses homens de fantoches, eles continuaram livres, agiram, falaram e escreveram a partir da sua livre escolha para Deus.
Ao longo do tempo, três grandes conceitos sobre a inspiração bíblica se estabeleceram (existe um vasto leque de teorias, que de forma ou outra se aproximam destas três):
Inspiração total: o homem é tomado pelo Poder de Deus e escreve. Neste conceito o homem não tem participação sensível na formação do texto, sendo possível compará-lo a uma máquina de escrever, que nada pode realizar por si, sendo totalmente instrumentalizada pelo seu operador. Uma das implicações dessa perspectiva é que não poderiam haver quaisquer erros nos textos bíblicos, pois sendo perfeito Deus não erra.
Inspiração verbal plena: o homem recebe de Deus o que deve escrever e o registra. Neste conceito, Deus dita ao ouvido de quem escreve aquilo que ele deseja revelar ao homem. Aqui o escritor tem uma participação maior na formação do texto, pois ele precisa receber o conteúdo e transpô-lo em texto a partir de suas próprias habilidades, ele reflete sobre o conteúdo. Esse conceito resolveria a existência de dados imprecisos na escrita nos textos, já que imperfeitos como somos podemos ter compreendido mal ao ditado de Deus.
Inspiração geral: o homem e Deus escrevem. É a perspectiva mais satisfatória para explicar a autoria divina das Escrituras e ao mesmo tempo justificar achados controversos, entre outros problemas bíblicos. Deus, como o autor que cria, utiliza-se do escritor humano que dá forma ao texto final lançando mão de suas habilidades particulares (inteligência, curiosidade, temperamento, estilo de escrita, etc.). Assim, o indivíduo, inspirado por Deus, busca fontes e materiais, que costura em um texto único, imprimindo características humanas com uma maior liberdade em escrever e participar com Deus no texto.
Da Revelação
Uma vez compreendida a inspiração como aquele meio especial pelo qual Deus fez chegar a nossas mãos a Sagrada Escritura, passamos a perguntar: porque ele fez isso?
“Façamos o ser humano a nossa imagem e segundo nossa semelhança” Gn 1,26.
Deus fez o homem de forma diversa do restante da criação, apenas pela gratuidade de sua vontade. A sequência da narração acima também diz que Deus e homem coabitavam no Éden e que, ao comer do fruto proibido também a capacidade de julgar entre o bem e o mal foi adquirida pelo homem (Gn 3,22). A partir do quê e só então o homem foi retirado do Éden, do convívio com Deus.
Podemos concluir, que desde o início Deus nos quisera para conhecê-lo e para viver com Ele. Será por seu amor e infinita misericórdia que buscará se aproximar e se reaproximar do homem. Essa reaproximação se dá na história, nos eventos, em seus significados. Para Israel, a história sempre foi meio de ação salvadora do povo pela mão de Deus.
Da descendência de Adão, ao menos um ramo permaneceu fiel a Deus, mesmo tendo sido banido do Éden. Desse ramo sairá Noé, onde encontramos a primeira narração explícita de um diálogo com Deus e de sua iniciativa. Novamente Deus terá a iniciativa e falará com Abrão (Gn 12,1) e o conduzirá e se revelará e fará com ele uma nova aliança e, Abraão (Gn 17,5) será o pai dos que creem no Deus Único (monoteísmo).
“Deus pronunciou todas estas palavras: ‘eu sou o Senhor teu Deus, que te tirou do Egito, da casa da escravidão. Não terás outros Deuses além de mim.’” Ex 20, 1-3.
Só Deus pode dar a conhecer a Deus, como criaturas não o podemos fazer por nós mesmos. Se fazer conhecer é a revelação, dava progressivamente na história e plenamente em Cristo. Ele é a encarnação da Palavra, a própria revelação.
Assim, um Deus vivo se revela em Palavra Viva a um povo escolhido, o qual é chamado a escuta e anúncio dessa mesma Palavra.
Finalmente, em relação às escrituras podemos dizer que embora Deus não a tenha entregue pronta ao homem, com cada palavra, história, dado já escolhido, foi sua vontade salvadora que o fez revelar desta forma, dialogando e interagindo com o homem.
Da Verdade e Inerrância
Todo texto bíblico tem sua utilidade e seu papel no projeto de Salvação para o homem, sendo este o seu grande propósito e sendo a Salvação o regresso plenificado do homem para Deus, que é perfeito, bom, fiel, justo e verdadeiro.
“...Permanece firme naquilo que aprendeste e aceitaste como verdade… desde criança conhece as escrituras sagradas. Elas têm o poder de comunicar a sabedoria que conduz para a salvação pela fé no Cristo Jesus... é útil para ensinar, para argumentar, para corrigir, para educar conforme a Justiça.”
2 Tim 3, 14ss.
Sendo Jesus Cristo da mesma natureza de Deus Pai, é verdade (Jo 14, 6) e, por consequência, seu testemunho (Novo Testamento) é igualmente verdade. Mas, Jesus também validou a antiga aliança (Antigo testamento) por inúmeras vezes (Mt 5, 17ss). Portanto, toda Sagrada Escritura é verdadeira.
Se o que Deus tivesse revelado de si mesmo ao homem não fosse verdade, isso implicaria não só que a Salvação é um engano, como poderia ensejar Deus como falso, mal e mentiroso.
“Pois não foi segundo fábulas habilmente inventadas que vos damos a conhecer o poder e a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas sim, por termos sido testemunhas oculares da sua grandeza.”
2 Pe 1, 16.
Finalmente, sobre a verdade bíblica concluímos que ela ensina a verdade que Deus quis colocar nos escritos sagrados por causa da nossa salvação. (DV 3, 11).
As coisas reveladas por Deus, contidas e manifestadas na Sagrada Escritura, foram escritas por inspiração do Espírito Santo. Com efeito, a Santa Mãe Igreja, segundo a fé apostólica, considera como santos e canônicos os livros inteiros do Antigo e do Novo Testamento com todas as suas partes, porque, escritos por inspiração do Espírito Santo (cfr. Jo. 20,31; 2 Tim. 3,16; 2 Ped. 1, 19-21; 3, 15-16), têm Deus por autor, e como tais foram confiados à própria Igreja (1).
Todavia, para escrever os livros sagrados, Deus escolheu e serviu-se de homens na posse das suas faculdades e capacidades (2), para que, agindo Ele neles e por eles (3), pusessem por escrito, como verdadeiros autores, tudo aquilo e só aquilo que Ele queria (4).
E assim, como tudo quanto afirmam os autores inspirados ou hagiógrafos deve ser tido como afirmado pelo Espírito Santo, por isso mesmo se deve acreditar que os livros da Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem erro a verdade que Deus, para nossa salvação, quis que fosse consignada nas sagradas Letras (5). Por isso, «toda a Escritura é divinamente inspirada e útil para ensinar, para corrigir, para instruir na justiça: para que o homem de Deus seja perfeito, experimentado em todas as obras boas» ( Tim. 3, 7-17 gr.). (DEI VERBUM 3, 11).
A inerrância é um conceito diferente e no catolicismo resolvida no mesmo trecho imediatamente acima. Trata da questão dos erros (possíveis erros) contidos na Bíblia, o que traz um problema teológico, principalmente entre as diferentes doutrinas cristãs.
De maneira simplificada poderíamos explicar a questão retomando o tema da inspiração e autoridade da Bíblia. Se nosso Deus é autor das escrituras não podem elas apresentarem erros e para alguns ramos do cristianismo essa é uma questão fundamental.
Compare os textos abaixo
Jo 1, 40ss - vs - Mc 1, 16ss
2 Sm 8:4 - vs - 1 Cr 18:3, 4
Todavia, os avanços científicos já demonstraram que alguns dados, datas, disposições geográficas e, até mesmo, algumas narrações não são no todo corretas. Quando se compreende, pela inspiração, que o homem teve participação na escrita, na elaboração do texto que sustentaria a Revelação feita por Deus é possível compreender essa situação: o texto pode conter erros ou diferenças em seu conteúdo, mas não erra em seu propósito que são as verdades da parte de Deus.
Da interpretação
Interpretar é uma habilidade humana empregada para assimilar algo, para entender o que se quer transmitir por meio de uma mensagem (escrita ou não). Quando tiramos tempo para lermos uma notícia, não fazemos sozinhos, conosco leem a notícia todas as nossas memórias, as coisas em que acreditamos, nossa formação escolar, nossa orientação política, nossos traumas, nossa visão de mundo. Tudo isso fará termos uma impressão do conteúdo da notícia muito particular, será o que ela nos comunicará.
É fácil entender que nossa interpretação será única, ela encontra diferença em nossos pais, companheiros, filhos ou conhecidos. Cada leitor, em nosso caso, terá sua própria experiência com o texto. Não menos importante será a intenção de quem escreveu a notícia, o repórter, o editorial do jornal, a fonte da informação. Cada um dos envolvidos tem uma intenção particular, ou seja, todos têm um objetivo ao ser alcançado com aquele texto e a forma como ele será recebido-interpretado é fundamental para o sucesso desta intenção.
A seguir incluímos uma imagem que procura exemplificar todo o processo e, também, a distância entre o acontecimento e sua interpretação. Vejamos:
Quando falamos de texto bíblico não podemos esquecer sua especialidade como revelação de Deus e tudo aquilo que ele quis nos comunicar. A interpretação deste texto merece um cuidado muito especial e é nesse sentido que a preocupação da Igreja se manifesta.
A Igreja não nos proíbe a interpretação particular, aquela de uso privado, resultado do contato pessoal com Deus por meio das escrituras. Mas, não estamos falando desse tipo de interpretação neste tópico. A interpretação bíblica, pública ou oficial, por assim dizer, é a interpretação reservada à Igreja. Isso, pois todas as verdades que Jesus quis revelar ele fez para a Igreja (Lc 8, 10) que é parte dEle mesmo (1 cor 12, 27. col 1, 18).
Há denominações cristãs que, utilizando da premissa que o Espírito Santo foi derramado sobre toda a Igreja (Jo 14, 15ss), que são seus membros e não as posses ou as estruturas, admitem que a verdade se manifeste em toda a interpretação, feita por qualquer pessoa, a isso foi dado o nome de livre exame.
Entretanto, não é fato novo que as escrituras são um produto complexo, desenvolvido ao longo de séculos de história de um povo, que foram construídas por muitas mãos, etc. Assim, diante de todo o exposto, é possível compreender que o alcance da mensagem fundamental de cada trecho não é possível sem um considerável preparo prévio. O que a Igreja faz ao se reservar a interpretação das escrituras é garantir que as verdades divinas registradas não sejam distorcidas ao longo do tempo, ela neutraliza as influências sobre o texto conforme o esquema a seguir.




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