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Jesus Cristo (Judeu, Carpinteiro, Rabino, Profeta, Messias, Filho de Deus)

Que bom que chegamos até aqui, agora que percorremos todo o Antigo Testamento, podemos mergulhar no mistério pascal de Jesus Cristo, registrado para nós no Novo Testamento. Importante, é em Jesus Cristo que o todo o Antigo Testamento se plenifica, o que faz de tudo o que pudemos estudar algo saborosamente revisitado agora que trabalharemos a vinda e pregação do Messias, mais o testemunho das primeiras comunidades.

Jesus Cristo é Nosso Senhor, mas é também o personagem mais intrigante da história. Nós estamos nos propondo a estudar a Bíblia, mas não poderíamos falar de Jesus apenas pelo que nos chegou registrado nela. Existem menções sobre Jesus em outros documentos de seu tempo, como os registros de Flávio Josefo, um historiador judeu que consignou em seus arquivos algumas notas sobre o início do cristianismo. Isso é prova de um Jesus Homem, uma pessoa, personagem da história de um local, mas também mundial, devido as proporções que acabou tomando.

Jesus de Nazaré, como ficou conhecido, precisa ser visto como alguém que interagiu com o mundo ao seu redor. E, o mundo que o rodeava era repleto de problemas, o povo estava minguando, dividido, haviam classes sociais que bajulavam o invasor romano para se manter com algum tipo de poder e classes sociais famintas e desassistidas. Esse HOMEM, Jesus, causará contenda em muitos lugares, pois suas palavras eram verdadeiras, não se preocupavam de ser suaves e, o tempo todo, mostravam as injustiças e descaminhos. Ele se tornou um problema para o social (aqui se entenda o interesse do poderoso e seu desejo de manter as coisas como estão, mas jamais a situação dos oprimidos).

Jesus nasceu em aproximadamente 4 a.C. (existe um equivoco na forma com que contamos os anos a partir de Cristo), filho de um artesão (carpinteiro), José e Maria. Jesus devia ser conhecido em seu povoado como Jesus filho de José, posteriormente veremos Jesus de Nazaré. Na construção cultural daquele tempo, os filhos aprendiam os ofícios de seus pais, isso garantia certa estabilidade para cada comunidade e, também, segurança para a criança que nascia, pois tinha certa garantia sobre o que faria na sua vida laboral. Assim, o padeiro criava um padeiro, o carpinteiro criava um carpinteiro, um agricultor garantia um novo agricultor e assim por diante. 

Jesus falava o aramaico, que era o idioma comercial na região desde antes da dominação romana, que ainda não tinha 60 anos. O aramaico e o hebraico se parecem muito, embora sejam línguas diferentes. Jesus como um bom judeu, aprendeu o hebraico na infância, para o uso na liturgia das sinagogas, nas quais pode participar mais ativamente a partir da adolescência, quando teve seu "bar mitzvah" (rito de passagem a partir do qual o garoto era considerado um homem adulto para a comunidade).

Não temos dados fiéis sobre seu tempo de infância até o batismo por João, o interesse nesse carpinteiro de Nazaré, que deixou seu ofício para se tornar uma espécie de profeta, só se manifestará para historiadores como Flavio Josefo e outros, depois de seus feitos. Depois que aqueles que o seguiram passaram a anunciá-lo como Messias e Senhor.

Continuando nossa caminhada de estudo sobre Jesus, sempre nos esforçando para ficarmos mais próximos da leitura histórica que da teológica, para esse momento, podemos considerar ainda que ao ouvir dos feitos de João, o Batista, ele deixou Nazaré, recebeu o batismo no rio Jordão e passou por uma experiência religiosa (lembremos da narração da manifestação de Deus quando do batismo de Jesus) e a partir dali o jovem carpinteiro, vindo de uma pequena vila da Galiléia toma uma atividade só sua. 

Jesus deixa a família, que a essa altura o têm como alguém fora de si, e inicia sua atividade formando um número de discípulos. Mais tarde alguns familiares se unirão a ele e o acompanharão. Não podemos descrever com precisão a vida pública que Jesus desenvolveu, entre seus 27 a 30 anos, aproximadamente. Tudo o que temos são os relatos dos Evangelhos. Mas, mesmo neles, não são claras as rotas e a sequência das viagens de Jesus. Passou pela Galiléia e atuou em Cafarnaum.

Jesus vive em um tempo onde o pouco que as pessoas tinham era sugado por meio de pesados impostos e taxas, administrados pelo filhos de Herodes Magno, que a essa altura eram tetrarcas de Roma para os territórios divididos da outrora Nação de Israel. As mazelas dos que tinham menos eram evidente aos olhos de todos, na outra mão da história a corrupção dos que bajulavam pelo poder, também. Esse será o pano de fundo de muitas das denúncias proféticas feitas por "este o filho do carpinteiro? O nome de sua mãe não é Maria, e o de seus irmãos: Tiago, José, Simão e Judas? Não vivem entre nós todas as suas irmãs?" (Mt 13, 55-56).

Cafarnaum é um cidade própria para que Jesus percebesse todas essas coisas, ela ficava no Caminho do Mar, uma rota de comércio importantíssima daquele tempo, controlada pelos romanos. Herodes Antipas (filho do Herodes que lhe tentara matar), era tetrarca [espécie de rei com menos poderes] da Galiléia, ele é o responsável pela morte de João Batista e tentando impressionar Roma com a construção de Tiberíades (entre outros) suga tudo o que pode do povo sob seu comando.

Também no campo da religião podemos extrair informações que nos ajudam a compreender quem foi esse nazareno. Com as dominações sofridas, o povo judeu estava cada vez mais a mercê das influências estrangeiras. Eles precisavam conservar sua identidade, isso era claro para eles, num esforço para fazê-lo o judaísmo se apega cada vez mais ao esforço se fazer-se diferente (no sentido de separado) a observação das leis do Pentateuco (613 ao total) acabam ficando tão rígidas que se poderia dizer se quase impossível para uma "pessoa comum" cumpri-las todas. Então temos mais uma fonte de discriminação e divisão, pois os que lidam com o culto como profissão, os sacerdotes e levitas, já seriam automaticamente mais santos, mais judeus, que todos os outros. Depois, aqueles que podiam dispor de mais tempo de seu dia e só então aqueles que mal conseguiam ter para comer, que certamente iriam transgredir alguma norma em algum momento e passariam a ser mal vistos entre seu próprio povo.

Jesus denunciará essa escravidão para com a Lei em diversos momentos, tentando fazer ver que não era o caminho que faria com que Israel fosse santa.

Como dissemos acima, Jesus não se preocupará com discursos bonitos, que sejam bem recebidos, encomendados. Ele falará o que crê ser preciso dizer, dirá com verdade. Suas palavras serão incontestáveis, mas também inquietantes, revoltantes, incômodas. Ele será o profeta por excelência, aquele que vem depois de Moisés, vê que está acontecendo e denuncia, pois o povo está mergulhado demais nas amarras do "sistema de vida" daquele momento e não conseguem fazê-lo por sozinhos. Não conseguem, como não conseguiriam, prova disso é o destino desse Jesus de Nazaré, que acabará pregado a uma cruz. Morto por causa da sua autenticidade, da autoridade com que denunciava. Morto por causa da verdade. 

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