Nosso material de estudo passará por alguns conceitos iniciais sobre Evangelho, que são importantes para contextualizar a entrada no Novo Testamento. Na sequência, tratamos os principais primeiros pontos sobre o Novo Testamento, em relação a sua composição. Desta forma, podemos tratar os livros em seus conjuntos, a partir do próximo material.
Primeiras considerações, o Evangelho em três fases.
Nossa principal fonte de informação sobre a vida de Jesus são os evangelhos, ali encontramos o maior relato sobre sua vida, mesmo que não sejam obras historiográficas, ou seja, o objetivo principal deles não é narrar a história de Jesus (como entendemos um livro de história em nosso tempo), mas transmitir as verdades e a pregação cristã.
Evangelho vem do grego ευαγγέλιον, euangelion (eu → bom; angelion → mensagem).
Acerca da vida de Jesus em sua jornada histórica, se assim podemos dizer, já tratamos no artigo anterior. Jesus em sua vida pública, pregou sua mensagem, essa mensagem é o que dizemos em nível de estudo bíblico, o primeiro Evangelho. Pois, antes de mais nada, o Evangelho foi vivido na pessoa de Jesus.
Na sequência, a Boa-nova foi anunciada pelos seguidores de Jesus (Mc 16, 15s) que se constituíram em verdadeiras comunidades distintas, porém, inseridas em suas cidades. As comunidades dos que acreditavam em Jesus dentro de grupos de judeus, mantinham os costumes judeus e viviam, além destes, a Boa-nova na qual acreditavam. Também, as comunidades gentias, ou seja, de não judeus, viviam em meio aos grupos sociais de origem, mas abraçavam a Boa-nova em que acreditavam. Só mais tarde, por volta do final do primeiro século, as comunidades judeu cristãs romperão com seus grupos de origens e, deixarão de participar nas sinagogas para constituírem as igrejas como comunidades inteiramente independentes (ekklesia → assembleia).
Esse período inicial da vida da Igreja, primeiras comunidades, é o segundo Evangelho. Pois, ainda antes de decidirem escrever sobre a vida e mensagem de Jesus, testemunhada pelos seus seguidores (At 2, 14-41; 3, 1-13) essas pessoas a viveram (At 2, 42-47).
Uma consideração importante sobre os textos no Novo Testamento, é que não devemos vê-los como escritos sucessivos, visto que não o foram. Na verdade, há cartas do Novo Testamento que são redigidas contemporaneamente a redação dos Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João. Desta forma, parece mais fácil de compreender as três etapas dos evangelhos que estamos abordando neste momento.
O terceiro Evangelho é o escrito, nesse grupo se encontram os evangelhos que chegam até nossas mãos, sejam eles parte ou não da Bíblia. Sim, existem textos do tipo Evangelho que não foram incluídos na Bíblia e os motivos são diversos, podemos resumidamente dizer que, os textos que são chamados apócrifos (pois não entraram na Bíblia) continham trechos estranhos à tradição que a Igreja preservava, ou seja, não concordavam com o segundo Evangelho (fase da Boa-nova vivida pelas primeiras comunidades), nesse grupo haverá textos fortemente distantes do que foi considerado autêntico de Cristo e outros não tão distantes, mas que poderiam trazer algum tipo de problema (também há casos em que não eram aceitos em todas as comunidades cristãs já existentes).
Processo de escrita dos Evangelhos
Assim como no caso do Antigo Testamento, o cânon do Novo Testamento (lista de livros amplamente aceitos) não nasceu pronto, mas foi resultado de uma caminhada da chamada Igreja Primitiva. De maneira que o conteúdo dos textos é reflexo dessa experiência e vivência das primeiras comunidades, vejamos que em Mc 10, 11-12 se pensa na possibilidade de que também a esposa deixe o marido, o que era possível na cultura romana, mas em Mt 19, 9 apenas o homem poderia fazê-lo, ficando de acordo com a cultura judaica.
Isso não significa dizer, porém, que os escritores dos textos evangélicos adulteraram a mensagem de Jesus, como alguns querem sugerir, mas que contextos redacionais eram levados em consideração para melhor transmitir a Boa-nova.
Temos como canônicos quatro Evangelhos: Mateus, Marcos, Lucas e João. Estes textos procuraram atender a leitores específicos, por isso, muitas vezes, nos deparamos com semelhanças e/ou diferenças entre eles, muito embora estejam relatando uma mesma história, Jesus.
Os textos foram produzidos considerando as tradições que a Igreja carregou consigo ao longo do tempo, não temos hoje, defende a pesquisa bíblica, um texto que tenha sido redigido imediatamente após a Ascensão do Senhor. Então, é preciso lembrar sempre que o escritor do texto em efetivo colhera informações com as comunidades, com os discípulos e com os apóstolos, a fim de registrar uma narrativa. Isso fica bem claro quando percebemos quão diferente são os três primeiros evangelhos em relação ao evangelho de João.
No campo da Tradição da Igreja, devemos considerar também os outros elementos do Novo Testamento, não como bases para os escritos dos Evangelhos. Mas, certamente são prova da forma como se pensava naquele momento em que os textos foram escritos.
Neste raciocínio, por exemplo, podemos ter a certeza de que a eucaristia existia desde os primórdios. Ela é testemunhada em At 2, 42 cuja autoria é dedicada ao mesmo escritor do texto Evangelho de Lucas, é também testemunhada na primeira carta a Coríntios 11, 17-34. A carta a Corinto é datada por volta de 54 d.C. já Atos dos Apóstolos é provavelmente do ano 80 d.C. ou pouco depois. Tradicionalmente se compreende Atos dos Apóstolos como continuação do Evangelho de Lucas. Então, é possível compreender como era, de fato, importante a eucaristia para as comunidades como mandamento de Jesus e, certamente, teria de estar em todos os Evangelhos (como foi o caso). Antes de o Evangelho de Lucas ter sido composto (escrito) como temos hoje, a eucaristia já era tratada em outros textos cristãos como as cartas de Paulo.
A propósito dos demais escritos do Novo Testamento
As cartas constantes no Novo Testamento nasceram da relação entre os pregadores do Evangelho e as comunidades que se formaram pelo mundo. No caso de Paulo elas foram provocadas por dúvidas, discussões ou conflitos nessas comunidades, às quais ele tentava corrigir por meio dessas cartas. As cartas que não são atribuídas a Paulo, formam geralmente um grupo de cartas católicas (universais), ou seja, que se destinavam a todas as comunidades e tratavam de pontos que podiam valer a todas elas. Testemunho de que as cartas eram trocadas entre as comunidades e lida por todas, como verdadeira mensagem cristã e de autoridade achamos em Cl 4, 16.
Elas passam então, não todas, pois houve muitas outras, a serem reconhecidas universalmente (universal → católico) como Palavra de Deus a seu povo e, por este motivo, acabaram compondo o cânon do NT, juntamente aos Evangelhos e o Atos dos Apóstolos.
O cânon do Novo Testamento
A regra que serviu para determinar os livros que iriam compor o Novo Testamento era, basicamente, o ensinamento de Jesus, o escrito deveria estar de acordo com o que Jesus pregou e que foi testemunhado pelos Apóstolos. Depois do ano 100 d.C. a Igreja sentiu a necessidade de identificar e separar os escritos que continham ideias ou doutrinas falsas daqueles que eram fiéis ao Senhor e aceitas em todas as comunidades (universalidade).
No final do século II já se aceitava como critério fundamental que os escritos fossem de origem apostólica, ou seja, que tivessem sido escritos por um dos apóstolos de Jesus ou por alguém que tivesse se relacionado diretamente com ele e transmitido com fidelidade o seu pensamento. Nesta época, o Cânon de Muratori (uma relação de livros escrita no final do século II) é o testemunho mais antigo com relação à existência de um cânon do NT.
Alguns escritos que hoje temos na Bíblia não era aceitos em todas as comunidades e por isso, durante alguns séculos, se discutiu muito até que chegássemos a lista que temos hoje. Os livros que não eram aceitos universalmente desde o início são: Hebreus, Tiago, II Pedro, II e III João, Judas e o livro do Apocalipse. Então, as comunidades, as igrejas, tinham entre si quantidades diferentes de livros sagrados compondo o Novo Testamento.
Já em 382 d.C. o papa Dâmaso publicou uma lista definindo os 27 livros do Novo Testamento que dispomos até os dias atuais. Mais detalhes sobre a condição de cada escrito veremos quando alcançarmos cada um deles.
Importante! Não confundir os livros inicialmente não aceitos em toda a Igreja, deuterocanônicos, com os livros excluídos do uso comum por conterem trechos divergentes quando à doutrina ensinada por Jesus e transmitida pelos Apóstolos, conhecidos como apócrifos.
O cânon da Igreja está assim estabelecido: 4 livros dos Evangelhos, 1 livro dos Atos dos Apóstolos, 13 epístolas do Apóstolo Paulo, 1 dele aos Hebreus, 1 de Tiago, 2 de Pedro, 3 de João, 1 de Judas e o Apocalipse de João.
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