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Os primeiros livros da Bíblia, Pentateuco

Agora que já tivemos uma panorâmica da história contida nos cinco primeiros livros da Bíblia pentateuco, vamos nos dedicar sobre a sua estrutura como material escrito.

Como já vimos, os cinco primeiros livros da Bíblia são a única parte de toda a Sagrada Escritura idêntica para judeus, cristãos católicos e não católicos. E, isso tem sua razão de ser, mostra um destaque particular desse conjunto.

Importante! lembramos que nesse curso optamos por usar os termos cristãos católicos e cristãos não católicos para abreviar a indicação dos grupos cristãos. assim, os cristãos católicos compreendem todas as igrejas tradicionais, fundadas por apóstolos de Jesus Cristo e cristãos não católicos compreendem todas as igrejas nascidas a partir do evento da reforma protestante ocorrida na Idade Média, da qual Martinho Lutero é o nome mais conhecido.


A palavra Pentateuco tem origem no grego e pode ser traduzida como os cinco rolos, ou os cinco livros (pente = cinco; teuchos = rolos).

Fazem parte do conjunto chamado Pentateuco os livros que conhecemos com os nomes de Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Desde o início estes cinco livros são considerados como um bloco, um conjunto, uma obra, e por isso receberam a denominação de Pentateuco. Para os judeus esse grupo de livros é conhecido como Torá, que poderíamos traduzir como a Lei. Também, os mesmos judeus chamam o conjunto de livros de Moisés, visto que tradicionalmente dedicam a ele a autoria desse bloco.

Observe! Quando encontramos no Novo Testamento alguma fala de Jesus, por exemplo, se referindo a Lei se está tratando especificamente de um conteúdo deste cinco primeiros livros da Bíblia.


Os nomes dados a cada um dos livros tem origem na tradução dos LXX, aquela tradução do Antigo Testamento que é utilizada pelos cristãos católicos desde o tempo dos Apóstolos. Esses nomes se referem ao tema de cada livro físico manifestado já nas primeiras palavras de cada um deles, vejamos: 

  • Gênesis quer dizer origem, pois nesse livro estão narradas as origens do mundo e do homem;
  • Êxodo pode ser traduzido como saída, por que o livro trata da saída do povo hebreu do jugo egípcio;
  • Levítico significa dos Levitas, que eram os sacerdotes do Povo, o livro traz uma vasta normativa relacionada com o culto;
  • Números, pois seu conteúdo inicia com a história do recenseamento feito no deserto por Moisés;
  • Deuteronômio, que é uma palavra de origem grega e que pode ser traduzida como segunda lei, pois o seu conteúdo faz um apanhado e uma repetição das regras e normas do povo judeu.

Observe! Muito embora os cristãos não católicos não aceitem a tradução dos setenta, como a aceitam os católicos, eles se utilizam dos nomes dados aos livros naquela tradução e não usam os nomes utilizados na tradução da Bíblia Hebraica que aderiram na Idade Média.


Curiosidade! Os nomes das cinco seções do Pentateuco para os judeus são: Bereshit que traduzimos para "no início"; Shemot que traduzimos para "nomes"; Vayikra que traduzimos para "e ele disse" ou “e chamou”; Bamidbar que traduzimos para "no deserto" e Devarim que traduzimos para "palavras"



O conteúdo dos livros do pentateuco pode ser organizado da seguinte maneira:


Gn 1-11

Pré-história bíblica, as origens, temas fundamentais. 

Gn 12-50

Início do período histórico bíblico, Abraão, Isaac e Jacó, José e a ida para o Egito.

Ex 1 - 15

Saída do Egito até a celebração da Páscoa.

Ex 15 - 18

A caminhada pelo deserto até o Sinai.

Ex 19-40

A aliança no Sinai.

Lv 1 - 10

Leis relativas ao culto.

Lv 11 - 27

Leis relativas à santidade do povo.

Nm 

Caminhada até às margens do Jordão.

Dt 1 - 11

Discursos de Moisés.

Dt 12 - 26

A Torá primitiva.

Dt 27 - 30

Discursos de Moisés.

Dt 31 -34

Despedida e morte de Moisés.

 


Autoria e origem


Por muito tempo este cinco livros foram considerados escritos pelo próprio Moisés, não é incomum nos depararmos com expressões do tipo a Lei de Moisés, o livro de Moisés, etc. Na verdade, entre os judeus até mesmo hoje há quem defenda a autoria destes livros por Moisés. Mas, nos últimos séculos o estudo bíblico cresceu muito e entre outras tantas reflexões está a da autoria deste conteúdo.

O que se pode concluir até o momento é que com certeza os judeus quiseram atribuir estes livros a Moisés não só para homenageá-lo, mas porque ele se encontra por trás de todo esse texto, ele influenciou esse texto com sua história, então é de certa forma seu autor.

É improvável que os cinco livros que tratamos neste tópico tenham sido produto de um registro do próprio Moisés, como um diário ou um registro na velhice. Entre alguns dos motivos que levam a esta conclusão estão: 
  • A morte de Moisés é narrada no Capítulo 34 do livro de Deuteronômio, isto sugere uma outra pessoa escrevendo este trecho;
  • Em alguns trechos Deus é revelado pelo nome de Javé e em outros designado Elohim, isso sugere mais de uma pessoa escrevendo o texto;
  • Há várias narrações em duplicidade (Gn 1, 1-2,4a e Gn 2, 4b-25 ou Ex 17, 1-7 e Nm 20, 1-13), um único autor, com uma única linha de pensamento, não registraria duplicidades; Além disso,
  • Se encontram ao longo do texto, avaliando-os cuidadosamente, alguns cortes e enxertos ou recensões de todo tipo (Ex 20, 1-17; 34, 10-28; Dt 5, 6-21).

As observações acima levaram os teólogos a concluírem que o texto que possuímos hoje para o pentateuco foi construído depois da existência do Moisés histórico e atribuído a ele, como já dito. Isto, pois se percebe haver um minucioso trabalho de costura das tradições orais existentes dentro de Israel em um único texto harmonizado que fosse capaz de falar para todas as tribos, conservando uma identidade de um só povo.

Observe! Antes da escrita da Bíblia ela era passada de forma oral de geração em geração, como já vimos em outro material. Como acontece até os nossos dias, o mesmo fato pode ser visto e contado de várias formas diferentes. Aqui nós nos deparamos com a tentativa de harmonizar em um só texto a forma como os sacerdotes viam a história das origens até Moisés (fonte sacerdotal) com a forma com que um outro grupo via a mesma história (fonte javista) com a forma com que um outro grupo via a mesma história (fonte eloísta) com a forma com que outro grupo via mesma história (fonte deuteronomista).


Hoje acredita-se que o pentateuco como o conhecemos e temos em nossas mãos foi composto ainda no tempo do exílio babilônico (587-538 a.C.) mas concluído e fixado apenas depois. A esse respeito nos dá testemunho o narrado em 2 Reis 22 que trata da descoberta do Livro da Lei, esse livro ao qual o texto se refere é a parte compreendida entre os capítulos 12:26 do nosso Deuteronômio.

Josias é o rei que promove uma grande reforma religiosa em Judá, pois o grande Reino de Israel a essa altura já estava dividido entre Norte e Sul. Essa reforma religiosa é a resposta que Josias dá para degradação do povo, que por sua vez resultou em um primeiro cativeiro na Babilônia em 710 a.C. Então o rei quer firmar a identidade de um povo, organizar o seu culto, organizar sua cultura, reestruturar aquela nação. Josias é considerado um grande rei para Israel e no meio de toda essa reforma religiosa é descoberto dentro do templo esse livro, perdido, esquecido, o que é imediatamente reconhecido como livro escrito por Moisés com a lei. Josias faz com que que esse livro seja imediatamente lido público o que nos faz pensar que naquele momento o povo não tivesse à sua disposição o texto do antigo testamento de forma escrita e acessível, não que não tivesse sido escrito antes, mas muito provavelmente com as sucessivas empreitada as contra Israel e mesmo seu esmorecimento na fé podem ter levado a perder-se os primeiros escritos. Isso faz desse achado algo muito importante.

Atualmente se acredita de todo o pentateuco como conhecemos é resultado de um enorme trabalho de reconstrução da identidade do povo, reunindo as histórias conhecidas a respeito de tudo que Deus havia feito por eles em um único material que viria a se desenvolver ao redor deste fragmento primitivo que podemos ter acesso até os dias de hoje. É nesse processo que podemos identificar textos originários de fontes documentais diferentes, como já abordado anteriormente (javistas, eloístas, sacerdotais e deuteronomistas).


Extra!

Quem foram os javistas? aqueles que se referiam a Deus por Javé, o código javista terá origem no reino de Judá por volta do século 10 aC (período que coincide com o reinado de Davi), é sua característica os relatos que fazem homem e Deus muito próximos, como o segundo relato da criação;

Quem foram os eloístas? aqueles que preferiam designar a Deus dando ênfase a Sua transcendência, Deus não tão próximo do homem, redigido por volta do século 8 a.C. já no Reino do Norte (Israel já estava dividido). É característica dessa tradição o sacrifício de Abraão Gn 22, 1-4;

Quem foram os deuteronomistas? nos grandes santuários da Samaria, Reino do Norte, Israel se reunia periodicamente para renovar aliança com Deus, acredita-se que os sacerdotes tenham redigido textos diferentes que repetiram a lei do Senhor em forma breve e poderiam ser utilizados a cada encontro, esses deuteronômios ou repetições da lei são os conteúdos que mais tarde serão encontrados na reforma promovida por Josias (2 Reis 22).

Quem foram os sacerdotais? durante o tempo do exílio na Babilônia, no século 6 a.C., sacerdotes de Jerusalém vendo seu povo destituído de sua monarquia quiseram lhe mostrar a continuidade das bênçãos e promessas que gozavam o antigo povo de Israel como uma nação sacerdotal (Ex 19, 5s) é característica desta tradição os textos que procuram ligar os patriarcas e o povo de antes e depois do exílio (Gn 5, 1-32; 46, 8-27).

Todos esses códigos acabaram fundindo-se em um único documento por volta do século 5 a.C., constituindo a Torá (Pentateuco) que temos hoje.

Comentários

  1. tudo muito bem explicado, mas, que tanta dificuldade tinham. vejamos as diferencas de antigamente pra hoje

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