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Os quatro evangelhos na Bíblia

Cada Evangelho foi constituído por próprias tradições a respeito de Jesus e/ou ditos dele mesmo, são resumos de vários fragmentos que se unem em cada escrito: Mateus, Marcos, Lucas e João. Ao lermos cada um dos Evangelhos não devemos colocar em primeiro lugar a história, como a entendemos hoje, mas a mensagem, pois nela chegamos mais próximos dos autores e das comunidades primitivas. 

Sinóticos

Três dos Evangelhos chamam a atenção por se parecem uns com os outros. São eles Mateus, Marcos e Lucas, o termo sinótico quer dizer “o que pode ser visto de uma só vez”, fazendo referência a um conjunto. Isto por causa das suas similaridades, confira:


MT

MC

LC

Batismo de Jesus

3

1 – 1, 11

3

Galileia

4 – 16, 12

1, 12 – 8, 26

4 – 9, 50

Jerusalém

16, 13 - 20

8, 27 - 13

9, 51 – 19, 44

Paixão

21 - 28

14 - 16

19, 45 - 24


Mesmo assim, ao se aprofundar na leitura paralela dos três textos se percebem características que são próprias de cada um. Isso se deve, consideram os estudiosos, a dois fatos: o primeiro abordaremos mais adiante e diz respeito a intenção de cada autor; o segundo se relaciona com as fontes, o texto de Marcos é considerado mais antigo que Mateus e Lucas, portanto, deve ter servido de ponto de partida para cada uma das redações, o que justifica que os três Evangelhos se pareçam tanto. Também, percebem os estudiosos, que deveria haver um outro texto mais antigo, uma coleção de ditos de Jesus, que era conhecido pelos escritores de Mateus e Lucas, mas não Marcos. Assim, se pode entender as diferenças que se acham, nos três escritos. Essa fonte, que não dispomos atualmente, foi nomeada como Fonte Q.


Marcos

O mais curto dos quatro Evangelhos, hoje ocupa papel de destaque nos estudos bíblicos, devido a descoberta de sua influência sobre os escritos de Mateus e Lucas, e pela criação do gênero literário chamado de Evangelho. 

A tradição diz que o autor desse livro é João, apelidado de Marcos, nascido em Jerusalém e atuante na evangelização do cristianismo primitivo. Citado no livro dos Atos dos Apóstolos (Atos 12, 12.25; 15, 37.39), teria sido seguidor de Pedro (1Pe 5, 13) e mencionado por Paulo (Col 4,10; 2Tm 4,11; Fl 24). Marcos teria composto o Evangelho que leva seu nome já em Roma, por volta de 70 d.C., mas talvez um pouco antes. Seu objeto, nos parece, registrar tudo o que ouvira a respeito de Jesus, nas pregações e atividades junto a Igreja Primitiva (talvez com ênfase a Pedro e seu ministério em Roma), isso justificaria que os relatos não apareçam em uma mesma ordem que nos outros Evangelhos. 

O relato de Marcos foi originalmente dirigido a cristãos de origem pagã. Marcos cita palavras em aramaico, mas as traduz (3, 17; 5, 41), também explica os costumes judaicos (7, 3s), o que não seria necessário para judeus convertidos. Ainda, coisas que soariam muito estranhas aos destinatários do seu escrito, não localizamos no texto (Mt, 5-7; Mt 23 vs Mc 12, 38-40). Marcos não tem preocupação de mostrar que as profecias se cumpriram em Cristo, por isso são poucas as citações do Antigo Testamento. 

Por outro lado, Marcos enfatiza muito mais os feitos de Jesus que os discursos, ao ler o Evangelho comparadamente com Mateus, por exemplo, se percebe claramente essa diferença (Mc 2, 1-12 vs Mt 9, 1-8; Mc 8, 14-21 vs Mt 16, 5-12). O foco de Marcos era realçar a divindade de Jesus por meio de sua humanidade, isto quer dizer que se pode acompanhar sempre um Cristo que é homem ao longo de todo o Evangelho (Mc 3, 21; 10, 18; 6, 5s; 13, 32).

Conforme São Gregório Magno explica, Marcos é simbolizado com um Leão, pois sua narrativa começa no deserto, habitat desse animal.

Mateus

A respeito de Mateus precisamos começar pela existência de um texto que não possuímos mais, é considerado certo, por inúmeros estudiosos, que havia um 1º Mateus, escrito em aramaico e anterior a Marcos ainda, este escrito se perdeu. O que temos em nossas mãos seria o 2º Mateus, um reescrito do livro, agora já alguns anos depois.

O Evangelho de Mateus é, provavelmente, reflexo do conflito judaico do primeiro século, os judeus precisavam firmar sua identidade, se não a quisessem perdê-la, para isso eles decidem fechar o cânon dos livros sagrados, separando-se tanto quanto possível daqueles que acreditavam em Jesus de Nazaré. Até o momento, os convertidos ao cristianismo vindos de origem judaica, não deixavam sua cultura e costumes religiosos, eles eram judeus cristãos. O Evangelho de Mateus parece se dirigir e confirmar na fé a estas pessoas, bem como a defender sua fé frente aos judeus não convertidos.

Podemos afirmar sobre o autor que é um bom conhecedor das Escrituras e das tradições judaicas, provavelmente de origem palestina, embora sua língua seja o grego (neste 2º Mateus). É tradicionalmente identificado com um dos Doze, chamado Mateus ou Levi (9, 9-13). Quanto ao local de composição, não há dados concretos, mas é possível que Mateus tenha sido escrito na região da Síria, e talvez em Antioquia, a capital. Lembrando que ali se estabelecerá uma importante comunidade cristã, onde pela primeira vez foram chamadas “cristãos”. 

É muito provável que o próprio Levi tenha sido autor deste escrito, vejamos que apenas em Mt ele é alcunhado como “o cobrador de impostos” o que era uma grande desonra para os judeus, na relação dos apóstolos em Mc e Lc, não se registrou essa característica. Quem teria coragem de atribuir tal desonra a um apóstolo se não ele mesmo? (Mc 3, 16-19; Lc 6, 14-16; Mt 10, 2-4). Corrobora essa hipótese o fato de que o escritor é o único a utilizar termos técnicos do serviço de cobrador de impostos em outra passagem relacionada ao tema (Mt 22, 19s), mostrando que era conhecedor do ofício.

O conteúdo de Mateus dá muito mais ênfase a discursos de Jesus, ocorrendo neste sentido o inverso que em Marcos. O foco de Mateus era provar que Jesus era o Messias das profecias do Antigo Testamento, aqui temos outra diferença deste livro para com Marcos, o Evangelho de Mateus utiliza uma abundante referência às escrituras do Antigo Testamento. O público de Mateus eram judeus convertidos, por isso ele não se preocupa de explicar os costumes ou as expressões semitas que utiliza em seu texto. Em Mateus temos o mais próximo do discurso do próprio Jesus, o sermão das montanhas em Mateus (Mt 5-7) está impregnado de semitismos, sendo provavelmente de mesmo corpo textual que usou Jesus.

Conforme São Gregório Magno explica, Mateus é simbolizado com um Homem, pois sua narrativa começa na genealogia de Jesus.

Lucas

Os textos Evangelho de Lucas e Atos dos Apóstolos foram escritos pelo mesmo autor e dedicados à mesma pessoa, "Teófilo" (Lc 1,3; At 1,1), são muito semelhantes em estilo e podem tranquilamente serem lidos em conjunto. Lucas é o único evangelista que, além da vida e dos ensinamentos de Jesus, apresenta a continuação de sua obra nos discípulos e as primeiras comunidades cristãs. 

Lucas está mergulhado na cultura grega, seu texto é de qualidade literária superior, tem fluidez narrativa, estilo biográfico e material exclusivo altamente sugestivo e atraente, eles enfatizam a humanidade de Jesus, a misericórdia de Deus, o acolhimento dos pecadores, dos pobres, dos marginalizados. Por isso, disse que o médico Lucas apresentou um Cristo que cura o mundo, um médico divino, só em Lucas Jesus restitui a orelha de Malco (Lc 22, 50s vs Mt 26, 51s ou Mc 14, 47s ou ainda Jo 18, 10s).

Para a Tradição, o autor é Lucas, companheiro de Paulo (Col 4, 14; Fl 23-24; 2Tm 4, 11). O local de composição de Lucas é desconhecido, mas provavelmente está localizado fora da Palestina. Os destinatários são cristãos não judeus (aqui se dispensam muitos elementos tipicamente judeus). A data de escrita do Evangelho de Lucas é geralmente em torno do ano 80 d.C.

Em Lucas temos testemunho de que outros textos já haviam sido escritos (Lc 1, 1-3), sua profissão fica subentendida na minúncia e conhecimento com que narra aspectos da medicina, como o suor de Jesus (Lc 22, 44) ou os sintomas dos enfermos (Lc 8, 27-29).

Lucas organiza seu texto para que Jesus vença o demônio logo no início da vida pública (Lc 4, 1-13), que começa suas atividades a caminho de Jerusalém (Lc 9, 51) para como um profeta, morrer em Jerusalém (Lc 13, 33), para Lucas o grande profeta era o Messias Aguardado, e esse é o corpo da sua mensagem.

Se Marcos enfatizou os feitos de Jesus e Mateus os discursos, Lucas enfatiza os detalhes de sua alma, características como misericórdia, alegria, mansidão e oração são grandemente exploradas em Lucas, ele é o único que indica nove ocasiões em que Jesus ora, ausentes em todos os demais sinóticos (3, 21; 5, 16; 6, 12; 9, 18; 9, 28s; 11, 1s; 22, 32; 23, 34.46).

Conforme São Gregório Magno explica, Lucas é simbolizado com um Bezerro, pois sua narrativa começa com um sacrifício.

João

O texto teve, provavelmente uma construção mais longa que os demais, a Tradição atribui o Evangelho a João, o filho de Zebedeu. João teria sido primeiramente discípulo de João Batista (Jo 1, 35-37), mas depois seguiu Jesus o acompanhando em toda a fase da sua atividade pública. Após a ressurreição, foi uma das primeiras testemunhas do túmulo vazio (Jo 20, 8). 

A perseguição deve ter levado João e sua visão dos acontecimentos (forma de interpretar o ministério de Cristo) para a região ao redor de Éfeso, na Ásia Menor, onde se espalhou para as sete cidades que são mencionadas em Ap 2-3. 

O Evangelho de João difere dos outros Evangelhos em muitos aspectos, costuma-se dizer que João é o mais teológico dos quatro Evangelhos, e ao mesmo tempo é aquele com um vocabulário mais simples. 

Mas João usa um vocabulário típico: verdade, saber, vida, judeus, mundo, testemunho, enviar, luz. Seu estilo também se afasta de Mateus, Marcos e Lucas. João prefere grandes conjuntos (trechos do texto que se associam), não faz numerosos relatos de milagres, escolhe apenas sete e os completa com longos discursos que os explicam.

Um exemplo para entender essa diferença é o relato da multiplicação dos pães, um dos poucos milagres presentes em todos os quatro evangelhos. Nos sinóticos encontramos a narração do acontecimento (Mt 14,13-21; Mc 6,32-44; Lc 9,10-17; Mt 15,32-39; Mc 8,1-10). Mas, em João temos uma séria de diálogos de Jesus que ajudam a entender o sentido do milagre (Jo 6,1-15; 6,22-40; 6,41-59; 6,60-71).

Jesus é o centro do texto em João, a tal ponto que a pregação de Jesus não tem um tema específico que se repete. O objeto da pregação de Jesus é o próprio Jesus e a questão da sua identidade. Nem há uma descoberta progressiva da identidade messiânica de Jesus, como nos sinóticos, aqui Jesus é revelado desde o início, usa a expressão "eu sou" com muita frequência, com vários complementos que expressam sua identidade, de preferência com símbolos do AT: maná, luz, pastor, vida, porta, o caminho, a verdade.

Conforme São Gregório Magno explica, João é simbolizado com uma Águia, pois sua narrativa começa com a divindade do verbo junto de Deus.


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