Pular para o conteúdo principal

Os Salmos e os Provérbios

Do grego psallein, poderíamos traduzir para "hino com acompanhamento de instrumentos de cordas". É, então, um canto em sua origem.


A coleção dos 150 salmos que temos a disposição, chamados de "saltério". A numeração de cada um dos salmos não é igual em todas as bíblias, isso por razão da forma como foram organizados, principalmente por ocasião das traduções ou cópias. Abaixo vemos uma tabela para comparar a numeração do salmo no texto hebraico e nas bíblias septuaginta e vulgata (versões católicas).


Bíblia Hebraica

Septuaginta (grega) e Vulgata (latim)



1-8

1-8

9-10

9

11-113

10-112

114-115

113

116, 1-9

114

116, 10-19

115

117-146

116-145

147, 1-11

146

147, 12-20

147

148-150

148-150


Para resolver esse problema, convencionalmente se indicam as duas numerações, a da hebraica entre parêntesis. Por exemplo, o salmo do Bom Pastor é de número 22 na versão da septuaginta, mas 23 na hebraica, logo o indicamos: Salmo 22(23).

Os salmos são orações do uso comunitário e litúrgico, mas também servem para o uso particular. Observamos nos diversos salmos, as mais diversas hipóteses de ânimo: adoração, louvor, perseguição, saudades do santuário, desejo de Deus, confissão dos pecados, alegria, tristeza, doença.


Eles possuem categorias e são agrupados nessas categorias, quando se quer melhor estudá-los: súplicas, lamentações, imprecações, orações de confiança, ação de graças, hinos, louvores a realeza de Deus, oráculos messiânicos, cănticos de Sion, cantos didáticos.


-> As súplicas geralmente pedem o fim do alguma calamidade. São súplicas coletivas (em vista a hostilidade dos pagãos, a infidelidade dos compatriotas, o exilio) os SI 43 (44); 73 (74); 79 (80); 137 (138). Serão individuais as súplicas (em vista de perigo de morte, doenças, perseguições, pecados) os SI 3;5;6;7;16(17);21(22).


-> As lamentações descrevem a miséria do que ora e a perversidade do inimigo, como os SI 12 (13); 37 (38); 76 (77); 87 (88); 88 (89).

-> As Imprecações [SI 34(35); 51(52); 58(58); 58(59); 108(109)] são preces que desejam males aos inimigos do que ora. O cristão os reza, desejando a ruina da maldade e não da pessoa.

-> Nas orações de confiança prevalecem os sentimentos de confiança e esperança, como os SI 4; 10 (11); 13 (14); 15 (16); 22 (23); 26 (27); 61 (62).

-> As orações de ação de graças exaltam a intervenção divina em favor daquele que ora, falam de um perigo do qual se foi libertado. Ver SI 9, 1-21; 29 (30); 31 (32); 33 (34); 39 (40); 65 (66); 117 (118).

-> Os hinos celebram a grandeza de Deus vista na criação ou na história de Israel. Podem ser mais cósmicos: SI 8; 18 (19), 1-7;28 (29); 64 (65); 103 (104). Podem ser, também, históricos: SI 67 (68); 104 (105); 105 (106); 113 (114). Há os hinos didáticos: SI 32 (33); 91 (92); 110 (111). E, existem os hinos mistos: SI 102 (103); 112 (113); 134 (135); 135 (136).

-> Os salmos que louvam a realeza de Javé, eram cantados talvez na festa de entronização de Javé ou de renovação da Aliança, no início do ano ou no início da primavera. Exemplos: SI 46 (47); 92 (93); 95 (96); 96 (97); 98 (99); 99 (100).

-> Os oráculos messiânicos tem por tema o rei Davi e sua descendência, à qual foi prometido o Messias. São orações ou do próprio rei, como os SI 17 (18); 100 (101); 143 (144); ou em favor do rei, como os SI 19 (20); 20 (21); 71 (72); 88 (89); ou em louvor do rei e dos seus feitos, como os SI 2; 44 (45); 109 (110); 131 (132). Eles têm uma caraterística que ultrapassar ambiente humano e histórico da casa de Davi e falar de um definitivo Messias e Reino.

-> Os cânticos de Sion louvam a Cidade Santa, juntamente com aspectos históricos da geográficos; aludem ao Reino do Messias prometido a Sion, como os SI 23 (24); 45 (46); 75 (76); 83 (84). Eles têm uma determinada ligação com Is 40-66.

-> Os cantos didáticos tem caráter sapiencial; transmitem ensinamentos da Lei, de história, e advertências sobre o juízo de Deus. Ver SI 14 (15); 49 (50); 77 (78); 111 (112); 118 (119); 138 (139).

Essa categorização não afasta que um texto se enquadre em mais de uma categoria, apenas sugere qual o propósito original do salmo ajudando, assim, a melhor rezá-lo.

Tradicionalmente se atribui a Davi a autoria dos salmos, mas ele não foi o único. Como sugestão de pesquisa, podemos verificar os títulos dos seguintes salmos: 38 (39); 41-48 (42-49); 49 (50). Ainda sobre autoria dos salmos, alguns deles são redações pós-exílio (587-538 a.C.), como aqueles em que se percebe nitidamente uma espécie de ressentimento para com a Babilônia.

Os salmos são importantíssimos para judeus e para cristãos. Eles fazem parte da liturgia dessas duas religiões, ambos os recitam (rezam, cantam) como parte de seu culto a Deus. Jesus rezou pelos salmos. É verdade, porém, que para os cristãos espalhados pelo mundo, majoritariamente distantes da história e costumes da comunidade judaica onde os salmos foram escritos, sua leitura é muitas vezes difícil (no sentido da compreensão).

Várias são as dificuldades, os salmos muitas vezes refere-se a Deus com antropomorfismo, isto é, dando-lhe atributos humanos (pés, mãos, etc.), noutras vezes ainda sustenta o conceito de sheol, onde restariam justos e injustos. Ambos, pensamentos para os quais não estamos inseridos culturalmente.

 

Provérbios


É o livro sapiencial que mais se destaca em relação a sua composição. Nele estão contidas normas (condutas de viver bem) que foram coletadas ao longo de toda a história de Israel, podendo muitas deles datarem do tempo do rei Salomão, chegando a outras do pós-exílio (séculos IV e III a.C.).


Provérbios, do hebraico meschalim, pode ser traduzido por "sentenças, máximas ou normas". Assim, temos em mãos um compêndio de advertências para o bem viver do leitor. Curiosamente, o enfoque dos escritos não faz ressaltar muito a presença de DEUS, mas também não o descarta (20, 22; 29, 25).


O livro se organiza em 9 coleções, com características próprias:


As mais antigas são as atribuídas ao rei Salomão: (10, 1-22, 16) e (25, 1-29, 27). A primeira coleção têm 375 sentenças e a segunda 128. Salomão foi sempre considerado o maior sábio de Israel, autor de três mil sentenças (1Rs 5, 12). Essas duas coleção não somam três mil provérbios, mas são certamente o núcleo do livro que estudamos e foi por essas duas coleções que se atribuiu a autoria do livro inteiro a Salomão.


As coleções chamadas "Palavras dos Sábios" (22, 17-24, 22) e (24, 23-34) são anteriores ao exilio, dada a sua analogia com as máximas de Salomão e visto o sou paralelo com provérbios egípcios escritos por volta do 1000 a.C. Trechos como as palavras de Agur (30, 1-14) e de Lamuel (31, 1-9) eram consideradas tão verdadeiras que, mesmo eles não sendo israelitas, foram adicionados ao livro.


Provérbios numéricos (30, 15-33), citam pessoas, coisas, hipóteses, pondo em relevo especial a última unidade. Se percebe neles uma construção poética que lança mão dos números para a construção de suas máximas (paralelo em Ex 20, 5; Dt 5, 9)


A coleção introdutória (1, 1-9, 18), talvez dos séculos III/V a.C, consta de poemas maiores, em que um pai interpela seu filho (1,10-19: 2, 1-22: 4, 1-27: 6, 20-35), dando avisos a respeito da mulher alheia, precavendo contra o adultério (2, 16-19: 5, 1-23: 6, 20-35; 7, 1-27). Se personifica a Sabedoria (1, 10-33; 8, 1-36; 9, 1-6) e a Loucura (9, 13-18)


O elogio da mulher virtuosa (31,10-31) de época incerta e tardia (séc. IV-II a.C.). Revela a grande estima que existia em Israel depois do exílico para com a mulher (Judite, Ester e Rute).


Há paralelos entre o livro dos Provérbios e coleções de sábios do Oriente extra bíblico: ideias e até mesmo expressões são, por vezes, as idênticas. Exemplo: Nos documentos egípcios, temos as instruções de Ptah-hotep sobre o cuidado ao falar (Pr 12, 17-19), ao receber presentes (Pr 15, 17); elogia a solicitude para com os pobres (Pr 21, 13) e o filho sábio que alegra seus pais (Pr 10, 1).


Os escritores do Novo Testamento parecem aludir, mais de uma vez, a Pr 8, 22-36, passagem em que a Sabedoria o personificada. Cristo o dito Sabedoria o Poder de Deus em 1Cor 1,24,30; CI 2,3; existia junto ao Pai desde toda a eternidade (Pr 8, 22s = Jó1, 1; 8, 58); por Ele tudo foi feito (Pr 8, 24-31 - Jó 1, 3; CI 1, 16); habitou entre os homens por iniciativa iniciativa (Pr 8, 31-Jó 1, 14); a estes comunica verdade e vida (Pr 8, 32-36 = Jó 14, 6: Le 11, 99). Já a Liturgia adapta a Maria Virgem os textos de Pr8, 22-36, pois Maria foi a sede da Sabedoria e a obra-prima da Sabedoria Divina; a estes títulos, ela participa do elogio da Sabedoria.

Comentários