O Apocalipse é, provavelmente, o livro que traz maior dificuldade para a sua compreensão no Novo Testamento. Mesmo assim, é o que mais fascina a maioria das pessoas, basta vermos a quantidade de obras de arte a este respeito ao longo da história (pinturas, escritos e filmes).
A palavra apocalipse pode ser traduzida como "o retirar de um véu", assim são chamados apocalípticos os escritos que se propõe a revelar aquilo que só Deus conhece a respeito da história, presente e futuro (incluindo o fim do mundo). É importante lembrar que esses escritos já existiam antes de Jesus Cristo e eram próprios do profetismo, os profetas eram os "homens da palavra" da Deus. Por isso, a Revelação de Nosso Senhor Jesus Cristo (Ap 1, 1) é, também, uma "profecia" (Ap 1, 3; Ap 22, 7) dada por um profeta (Ap 10, 11; Ap 22, 9). Para fins de didática, podemos sugerir uma leitura sequenciada de Daniel e depois Apocalipse (que pode ajudar a compreender o gênero da escrita, seu jeito).
O livro do Apocalipse é, ainda, um livro litúrgico, que foi enviado às sete igrejas para ser lido, ouvido e interpretado, na assembleia litúrgica (Ap 1, 3; Ap 22, 7; Ap 2, 7.11.17.29; Ap 3, 6.13.22; Ap 13, 9).
A tradição atribuiu a autoria do escrito ao apóstolo João, irmão de Tiago, mesmo redator do quarto evangelho. A escrita se deu em Patmos* (Ap 1,9), provavelmente do final do século I d.C. (~100d.C.), sob o imperador Domiciano, que forçou seus súditos a adorá-lo como um deus. Explica-se aqui a quantidade de hinos litúrgicos em Apocalipse, proclamando o Pai e o Filho como únicos Senhores.
*Patmos fica em frente a região de Éfeso, até os dias atuais nossos irmãos Ortodoxos possuem um mosteiro belíssimo nessa ilha e uma universidade de Teologia no continente.
Os destinatários desse escrito estavam enfrentando uma perseguição, como já vimos, as perseguições na região da Ásia Menor já ocorriam desde as cartas paulinas, presente também nas cartas católicas. Essa forma de escrita de João procurava dar resposta de esperança e encorajamento em tempos de perseguição aos seus leitores. João queria que não vacilassem, não cedessem aos valores do mundo que os rodeava.
O pensamento apocalíptico sempre é uma reflexão, inspirada por Deus, sobre o presente de uma comunidade. A mensagem profeta projeta para frente (futuro) fazendo um convite a refletir o momento atual de quem ouve a profecia.
O gênero literário apocalíptico (a forma de escrever esse tipo de texto) procura fazer refletir: mais sobre Deus Senhor absoluto da história, a que nada escapa e menos sobre uma descrição de como será o fim do mundo; que Deus é fiel à aliança que fez com seu povo e, quando este mundo acabar, o mal será aniquilado; que cada um receberá o que lhe corresponde de acordo com as obras que realizou.
Será por causa desses objetivos, que projetam para a eternidade que o Apocalipse é apresentado como "Boas notícias eternas" (Ap 14,6).
O Apocalipse ensina que o mal acaba consumindo quem comete o mal, por isso o mal não é eterno, ele terá um fim. É preciso manter a fidelidade e a esperança até que esse dia chegue.
Trata-se de uma obra com muitos símbolos, muitas vezes difíceis de entender. A primeira dica para ler é entender que cada elemento tem UM significado e que interpretar o cenário inteiro, como uma única narrativa coerente, é inútil.
Exemplos do simbolismo em Apocalipse (lembrando que estamos em um período em que a forma de pensar ainda é parecida com a do Antigo Testamento):
CHIFRES -> símbolo clássico de poder. O Cordeiro tem sete chifres (Ap 5, 6); Satanás também tem chifres (Ap 12, 3), a besta da terra (AP 13, 1 é a representação do Império Romano).
UNIVERSO -> a presença imediata de Deus na história. Seu escurecimento ou a queda de estrelas simboliza a destruição deste mundo mau para o aparecimento do novo céu e da nova terra.
NUMEROS -> símbolo da regularidade com que Deus governa a história:
+ 7 é um símbolo de plenitude e aliança;
+ metade de 7 (três e meio) e seus equivalentes (42 meses ou 1.260 dias = três anos e meio) sugerem que o mal não é eterno;
+ 12 geralmente signfica o povo de Deus (as tribos de Israel eram 12). A mulher coroada com 12 estrelas representa o povo de Deus que no Calvário deu à luz o Messias. O número dos eleitos, 144.000 (Ap 7,4-8), vem de 12.000 para cada uma das tribos de Israel, é a multiplicação de 12 por 12.000 (o mil indica uma grande multidão).
Esse tipo de linguagem é incompreensível para alguns, mas acessível para leitores cristãos, a partir de imagens do Antigo Testamento, ela identifica os adversários da comunidade de fiéis por meio simbolismo (então o texto transitaria com menos perigo para descoberta sobre o que se queria dizer). Mas, mesmo escrevendo para uma realidade da época, o escrito é atemporal: se o texto fala, por exemplo, da opressão do Império Romano representado pela Babilônia ou pela besta, o leitor sabe que Roma é apenas a encarnação do mal que ameaça a comunidade, e outras Babilônias se levantarão contra o evangelho depois de Roma.
Esquema
João recebe a revelação do que deve escrever a cada uma das sete igrejas da Ásia Menor (ap 2, 1 - 3, 22). Quem fala às igrejas é o próprio Cristo (Ap 1, 12-20), a sua palavra é de revelação e de julgamento: valoriza os aspectos positivos e negativos de cada comunidade, exorta, faz promessas. Especialmente significativas as últimas palavras de Jesus na última carta (Ap 3, 19-21), onde se anuncia a promessa da presença de Deus e se exorta à conversão. As cartas são endereçadas a comunidades específicas e localizadas, mas o próprio número sete indica que o conteúdo das cartas afeta a Igreja como um todo.
Os selos (Ap 4, 1 - 8, 1), começa com a visão de uma liturgia celestial. Existe um trono, um sinal da soberania universal de Deus na história da salvação; vinte e quatro anciãos, provavelmente é uma referência ao povo de Deus em sua situação transcendente (12 tribos de Israel e 12 apóstolos), quatro seres vivos, talvez representando toda a criação e os quatro anjos que, segundo as concepções judaicas, governam o mundo. O documento fechado com sete selos é aquele que contém o misterioso plano de Deus para a criação; um projeto inacessível ao homem, que só Cristo (o Cordeiro) poderá revelar e tornar realidade: ele é o único que pode revelar o sentido profundo da história e realizar definitivamente o projeto de Deus. A seguir, é explicado como o Cordeiro abre cada um dos selos e como isso tem consequências decisivas (Ap 6, 1-17). Depois de um interlúdio sobre a grande multidão de dos que se salvam (Ap 7, 1-8), a liturgia final desta seção evoca o imenso número de mártires que acompanham o Cordeiro (Ap 7, 9 - 8, 1). A vitória de Cristo mostra que no final o Bem triunfará, que um novo mundo está nascendo. Enquanto isso, a comunidade deve permanecer fiel aos valores de Cristo
As trombetas (Ap 8, 2 - 14, 5). Na visão preparatória é brevemente descrito como os sete anjos recebendo as sete trombetas (Ap 8, 2-5) ao serem tocados, caem sobre a terra várias catástrofes com as quais Deus quer chamar os homens à conversão (Ap 8, 6 - 13, 18). A liturgia celestial do Cordeiro e sua comitiva encerra esta seção (Ap 14, 1-5). As trombetas são o anúncio da proximidade de uma presença ativa de Deus na história e das desgraças que cairão sobre o mundo, se não se abrir ao chamado de Deus à conversão. A seção contém referências à ação de Deus para salvar o seu povo no passado (Ex), mas também tem uma perspectiva escatológica (Ez) e já se realiza no presente (Dn).
O interlúdio (Ap 12) sobre a mulher e o dragão, que pressupõe a luta entre os cristãos e o Império Romano. A mulher representa o povo de Deus, as doze estrelas de sua coroa para as doze tribos de Israel, que serão reconstituídas com a vinda e triunfo do Messias. O dragão vermelho é a representação do poder demoníaco. A mulher está para dar à luz, mas mais do que o nascimento do Messias, é sobre a sua exaltação: a Igreja dá à luz o Messias no drama do Calvário; Satanás foi derrotado, mas ainda retém sua capacidade de agir até que chegue a plenitude do Reino.
As taças (Ap 14, 6 - 19, 8). A visão preparatória (Ap 14, 6 - 20) apresenta a história das sete últimas pragas, que os anjos carregam em taças, e eles estão derramando sobre a terra (Ap 15, 1 - 18, 24). Boa parte desta seção é ocupada pela denúncia dos males que se cometem na Babilônia (ou seja, em Roma). A liturgia final descreve o casamento do Cordeiro (Ap 19, 1-8). As taças, sinal da ira de Deus, significam os castigos e a destruição sofridos pelos impérios totalitários, como o de Roma que não aceitam o governo de Deus.
As sete visões do final dos tempos, ao julgamento universal de Deus e à vida futura (Ap 19, 11 - 22, 5). Nesta sessão não vemos uma liturgia, Jerusalém celeste não tem templo, «porque o seu templo é o Senhor, Deus do universo, juntamente com o Cordeiro» (Ap 21, 22).
O Apocalipse oferece uma visão cristã da história que parte da experiência pascal (ressureição de Cristo): o mundo novo, esperado para o fim dos tempos, já foi inaugurado com a ressurreição de Jesus. Seu retorno como juiz e vencedor não pode ser adiado indefinidamente. Por isso, a Igreja deve viver pondo em prática o evangelho (Ap 2-3), para que assim possa participar da alegria definitiva (a nova Jerusalém) no novo céu e na nova terra que surgirá no final da história. (Ap 21-22). Desta forma, ela estará enfeitada e radiante quando chegar a hora da boda do Cordeiro.
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